Luana Lopes Lara cresceu em Icaraí, estudou balé no Bolshoi e engenharia no MIT e, em Nova York, criou uma plataforma de apostas preditivas que vale US$ 22 bilhões
Quem circulava pelos pavilhões do Riocentro há quase duas décadas dificilmente imaginaria que a menina de 12 anos, carregando sacolas cheias de livros comprados na Bienal do Livro, estaria, em 2026, no epicentro de uma das maiores disrupções do mercado financeiro global.
Prestes a completar 30 anos, Luana Lopes Lara circula pelas altas rodas de Wall Street e dita o ritmo de uma nova fronteira econômica.
Co-fundadora da Kalshi, uma plataforma de mercados de predição avaliada em US$ 22 bilhões, a jovem nascida em Belo Horizonte e que cresceu nas areias de Icaraí, em Niterói, transformou a intangível arte de prever o futuro em um negócio de bilhões de dólares.
A premissa da Kalshi é cirúrgica e joga luz sobre uma velha máxima da ciência econômica: o dinheiro é o melhor alinhador de incentivos que existe.
Em vez de derivativos tradicionais atrelados a ações ou commodities, a plataforma permite que investidores negociem contratos baseados em eventos do mundo real: desde a trajetória dos juros até o resultado das eleições passando pelo clima em grandes cidades em uma terça-feira qualquer.
Na prática, se você tem uma tese sólida sobre o amanhã, pode colocar dinheiro nela. E a precisão impressiona.
Em 2024, enquanto as tradicionais pesquisas de opinião desenhavam um cenário de empate técnico na eleição presidencial nos EUA, os modelos algoritmos e os dólares dos clientes da Kalshi já apontavam, semanas antes, uma vitória robusta de Donald Trump.
O mercado não apenas antecipou – e ganhou com – o resultado, mas a plataforma se provou um termômetro eficiente. Conseguiu até atrair os olhares atentos de um recente estudo elogioso do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA.
O caminho até o topo, porém, não foi trilhado sob o mantra do Vale do Silício de “quebrar regras e pedir desculpas depois”.
Com passagens por gigantes como Bridgewater e Citadel, a jovem e seu sócio libanês, Tarek Mansour, entenderam cedo que, no coração do sistema financeiro, operar fora da lei não gera disrupção, gera cadeia.
Foram quatro anos de um extenuante corpo a corpo com os reguladores americanos para envelopar legalmente os mercados preditivos.
O teste de fogo veio em 2024, quando a empresa processou o governo dos EUA para garantir o direito de negociar mercados políticos — e venceu.
O resultado foi um tsunami de liquidez: 2 milhões de novos usuários em duas semanas e a validação definitiva de bilhões de dólares perante tubarões institucionais de Nova York. Agora, os olhos da Kalshi se voltam para o futuro e para a expansão global, incluindo o Brasil.
O portfólio ganha musculatura com o lançamento dos contratos futuros perpétuos — uma inovação mecânica desenhada há três décadas pelo prêmio Nobel Robert Shiller, mas que só agora ganha as telas dos terminais financeiros pelas mãos de Luana Lopes Lara.
O objetivo de longo prazo? Sair da casa dos bilhões e desafiar o monopólio secular de gigantes do mercado como as plataformas de negociação da CME e ICE.
Nesta entrevista exclusiva ao CNN Money, ela volta, quase 20 anos depois, ao mesmo Riocentro dos livros da infância, mas agora como principal palestrante do Web Summit Rio, grande evento global de inovação.
Luana, porém, continua olhando para o futuro. Se antes sonhava com as histórias nas páginas compradas na Bienal, agora traça planos para o primeiro trilhão de dólares tendo Wall Street como cliente.
A seguir, a íntegra da entrevista:
Vamos começar a conversa olhando para o passado. A garota que cresceu em Icaraí, em Niterói, imaginava atingir o patamar onde está hoje?
Acho que não. Quando criança, eu sonhava grande e tentava descobrir como ingressar em escolas como o MIT ou Harvard, mas nunca achei que daria certo. É curioso, porque aos 12 anos eu frequentava a Bienal do Livro no Riocentro — o mesmo local onde hoje é realizado o Web Summit Rio.
Voltar aqui traz uma sensação de ciclo completo (full circle moment). Trabalhei muito duro, mas também tive muita sorte e o apoio de muitas pessoas para chegar até aqui.
Qual é o momento atual da Kalshi em termos de valor de mercado e estrutura?
Fundamos a empresa há oito anos, mas o crescimento acelerou drasticamente nos últimos dois. Hoje, estamos avaliados em US$ 22 bilhões. Tivemos um ponto de inflexão crucial na eleição americana de 2024 e, agora, estamos lançando os Perpetual Futures (contratos futuros perpétuos), que devem ditar o próximo salto da companhia.
Passamos de 40 para 170 colaboradores em um ano na nossa sede em Nova York. Esse crescimento de equipe foi contido porque, com o uso de inteligência artificial, conseguimos escalar a operação e atender milhões de usuários mantendo uma estrutura enxuta.
Onde a Kalshi estará em 5 ou 10 anos? Vocês criaram uma nova fronteira no mercado financeiro?
Sim. Nosso objetivo é nos tornarmos o maior mercado de derivativos do mundo e competir diretamente com gigantes americanas como a CME e a ICE. Para isso, avançamos em quatro pilares: primeiro, expandir o leque de ativos negociáveis, como esportes, política, economia, cripto.
Depois, estruturar operações de margem e alavancagem. Terceiro: diversificar a estrutura do mercado ao migrar do modelo estritamente binário, de sim ou não, para futuros e swaps.
E, finalmente, destravar a liquidez institucional. Hoje, movimentamos centenas de bilhões de dólares, mas queremos atingir a escala dos trilhões. Queremos que qualquer tese sobre o futuro possa ser negociada de forma líquida, regulada e segura.
A Kalshi expande o mercado ou rouba participação dos players tradicionais?
Atualmente, vejo nosso modelo como uma expansão do mercado. Contudo, no horizonte de 5 a 10 anos, passaremos a oferecer alternativas sabidamente superiores aos instrumentos tradicionais.
Os futuros perpétuos são um exemplo: são uma mecânica muito mais eficiente para montar posições em ações ou criptoativos do que os futuros convencionais, pois não possuem data de liquidação e dispensam a complexidade matemática de fatores como alfa e beta exigidos nas opções.
Os perpétuos aproximam a Kalshi da essência do mercado tradicional. Isso indica que o espaço para explorar temas inéditos está se esgotando?
De forma alguma. A teoria dos perpétuos foi proposta em 1992 pelo prêmio Nobel Robert Shiller, que já os apontava como superiores aos contratos futuros. A inovação está no fato de que demorou décadas para que os reguladores americanos estivessem confortáveis em legalizar essa estrutura.
O entrave no mercado regulado é mecânico, não de eficiência. Desenvolver a estrutura mecânica correta com o governo, garantindo a segurança jurídica e sistêmica, leva anos. Mas assim que você destrava a mecânica, a liquidez institucional entra e a eficiência máxima do mercado é atingida.
Desde o início, a Kalshi buscou o aval dos reguladores. Por que essa obsessão pela conformidade jurídica?
Minha formação e a do meu sócio são de Wall Street. Ele (Tarek Mansour) veio do Goldman Sachs, eu passei pela Bridgewater e nós estivemos na Citadel.
Nesses ambientes, víamos investidores com teses macroeconômicas claras, como a vitória de um candidato ou a recessão de um país, tendo que buscar ativos correlatos na tentativa de replicar essa visão, operando ações de setores específicos para fazer um hedge indireto.
Nós queríamos criar um mecanismo para expor o investimento diretamente à tese em si. Como vínhamos desse ecossistema, sabíamos que para atrair grandes fundos institucionais era mandatório ser regulado.
O Vale do Silício tem a cultura de “agir primeiro e pedir desculpas depois”. No mercado financeiro, essa postura te leva para a cadeia. Passamos quatro anos trabalhando com o governo americano para estruturar a regulação dos mercados preditivos. Se não tivéssemos feito isso, esse mercado não existiria na escala atual.
Qual foi o grande divisor de águas nessa relação regulatória?
Foi a eleição americana de 2024. Nós processamos o regulador norte-americano porque eles tentaram barrar os mercados eleitorais. Ganhamos em primeira e segunda instâncias.
O resultado foi um crescimento absurdo em duas semanas: atraímos mais de 2 milhões de usuários e transacionamos US$ 2 bilhões. Isso provou o valor dos nossos dados para a mídia e validou o modelo de negócios perante bancos e plataformas como Coinbase.
Hoje, detemos mais de 90% do mercado regulado nos EUA. O consumidor americano não confia em concorrentes internacionais baseados em paraísos fiscais. Ele exige transparência sobre onde está o capital e quem está na contraparte da operação.
Como se divide o faturamento da Kalshi entre investidores institucionais e pessoas físicas?
Começamos pela pessoa física porque a exigência de liquidez imediata é menor. São operações pulverizadas de US$ 100 ou US$ 500, o que facilita o início de qualquer operação de compensação.
Mas desde o ano passado atingimos a densidade de liquidez necessária para que fundos e grandes bancos de investimento passassem a operar ativamente na nossa plataforma.
É mais difícil convencer o regulador ou o investidor institucional?
O regulador é muito mais difícil. O investidor institucional é pragmático e altamente racional.
Se há um problema de exposição a risco e nossa plataforma resolve esse problema permitindo que ele ganhe dinheiro ou se proteja, ele entra. Já a esfera regulatória envolve componentes políticos e burocráticos muito mais complexos.
No mercado financeiro, para alguém ganhar, alguém tem que perder. Em mercados de predição sobre temas técnicos, os investidores menos informados não acabam sendo os perdedores recorrentes?
Não funciona dessa forma. A Kalshi não atua como contraparte das operações. São investidores negociando contra investidores. Mesmo os maiores especialistas erram.
Um expert com 70% de taxa de acerto é brilhante, mas ele ainda perderá dinheiro em 30% das vezes. Não se trata de assimetria contra o investidor mal-informado, mas da impossibilidade estatística de prever tudo com precisão absoluta.
Diferente de um cassino ou de bet, que sobrevivem da perda do cliente e banem os apostadores que ganham com frequência, nós queremos atrair o investidor qualificado e os especialistas. Quanto mais inteligente for o participante, melhor será a qualidade do nosso dado.
Como aponta um estudo recente do Federal Reserve, os dados de mercados como a Kalshi hoje são a ferramenta mais acurada para prever cenários futuros.
O que determina a qualidade do dado de um mercado de predição? O volume, a liquidez ou o perfil dos participantes?
O volume e a liquidez são muito importantes, e quanto mais participantes informados, mais rápido o mercado se corrige.
Porém, a exigência de volume e liquidez é muito menor do que as pessoas imaginam. Em uma eleição americana, por exemplo, seis meses antes do pleito, precisamos de menos de US$ 10 mil de volume para calibrar o mercado de maneira muito eficiente.
Com uma barra regulatória e operacional bem menor, já conseguimos extrair os benefícios dos mercados de predições.
E por que a acurácia é tão alta? É pelo simples fato de haver dinheiro em jogo?
Exato. Se eu te perguntar se vai chover amanhã valendo US$ 100, você fará muito mais pesquisas do que se não houvesse recompensa: olhará aplicativos, consultará outras pessoas, analisará o cenário.
Agora, imagine toda a população do Rio de Janeiro fazendo o mesmo. Obtém-se uma opinião conjunta muito mais calibrada. O dinheiro real alinha os incentivos e muda o comportamento.
Um estudo do Fed mostra que os mercados funcionam bem em cenários econômicos cujas variáveis são conhecidas e os agentes são especialistas. Mas quando migramos para temas pulverizados, como pesquisas eleitorais, os dados divergem. Por quê?
Eu diria que os nossos mercados políticos são ainda mais acurados que os econômicos, porque atraem mais participação e volume.
Além disso, as alternativas de dados na economia são razoáveis. Já na política, são muito ruins. Em 2024, nos EUA, as pesquisas de opinião indicavam um empate técnico (50/50) entre Trump e Kamala.
Na Kalshi, apontávamos 65% de chances para Trump. Fomos acusados de manipulação, mas ele venceu amplamente e o mercado provou seu valor. E, agora, agregamos milhares de mercados eleitorais em um indicador ponderado chamado American Power Index.
É como se fosse um S&P 500 da política, refletindo as probabilidades do Congresso e da Presidência em um único número.
É mais fácil fazer isso nos EUA devido ao bipartidarismo, mas reflete nossa meta de focar em dados e projeções. O segmento político é complexo e carece de alternativas eficientes, por isso vemos um crescimento massivo do interesse institucional nessa área.
Uma pesquisa pode ser comprada, mas as cotações (odds) dos mercados de predição não podem ser manipuladas?
Estudos universitários já tentaram fazer isso, injetando capital para inflar artificialmente as chances de um candidato.
Em mercados restritos, bastam menos de oito minutos para o preço retornar ao patamar real. Isso ocorre porque a distorção gera um incentivo financeiro para que outros agentes apostem contra a mentira e tragam o preço de volta ao equilíbrio para lucrar.
Além disso, temos uma equipe dedicada à conformidade. Nos EUA, tentar manipular esses mercados é crime federal e dá cadeia.
Em mercados com dezenas de milhões de participantes, a manipulação se torna estatisticamente quase impossível.
No Brasil, as plataformas de apostas e predições enfrentaram restrições. Vocês têm interesse em entrar no mercado brasileiro? Como estão as conversas com os reguladores?
Para nós, é fundamental fazer as coisas do jeito certo. Queremos trabalhar em conjunto com o governo brasileiro para explicar o nosso modelo. Nos EUA, passamos anos dialogando com os reguladores antes de lançar e crescer.
Como nossa expansão global foi muito rápida, alguns países olham apenas para o resultado final, sem entender que operamos de forma diferente das casas de apostas tradicionais.
O diálogo está ocorrendo. Queremos trazer essa solução ao Brasil pela via correta.
Sob a ótica econômica, tudo na existência humana pode ser precificado e protegido por meio de hedge e uma posição em uma plataforma como a sua?
Quase tudo, desde que haja limites éticos. Jamais ofereceremos mercados baseados em guerra, terrorismo ou assassinatos, pois isso geraria incentivos perversos e imorais.
Fora o estímulo à violência, acreditamos que ter mercados para precificar eventos, seja a trajetória da taxa de juros ou a vinda de um artista internacional ao país, é saudável e benéfico para a circulação de informação. Participa quem quer.
E como o mercado reage ao imponderável, àquilo que foge ao controle humano?
É justamente no que foge ao controle que a proteção se faz mais necessária. É a lógica do seguro residencial contra desastres climáticos imprevisíveis. Hoje, vemos muitas corporações utilizando os mercados de predição como um substituto eficiente aos seguros tradicionais, que são caros e rígidos.
Grandes ligas esportivas e organizadores de eventos usam nossa plataforma para fazer o hedge de suas receitas contra imprevistos no número de jogos de uma final ou no resultado de grandes competições. Trata-se de se proteger contra o que você não controla e não compreende.
Daria para criar um contrato futuro para se proteger da tristeza, por exemplo?
[Risos] No âmbito pessoal, não. Não precificamos variáveis individuais. Mas… se falarmos de uma métrica macroeconômica, como índices nacionais de depressão e seus impactos na saúde pública e nos gastos governamentais, isso é viável e útil para políticas públicas.
Mas contratos sobre a vida privada dos indivíduos estão fora de cogitação.
Você e seu sócio criaram um modelo de negócios disruptivo que atrai os olhos do mundo. Onde pretendem chegar? O Prêmio Nobel de Economia está nos planos
Seria ótimo [risos], mas o mérito teórico não é nosso. Os mercados de predição foram propostos por acadêmicos e economistas ainda na década de 1970. Dedicamos nossa operação a transformar essa teoria em um mercado real, líquido e acessível às pessoas.
Minha meta é que, em cinco ou dez anos, o mercado de predições seja global e substancialmente maior do que as fontes alternativas de dados econômicos e políticos. Se a empresa atingir esse patamar de relevância e utilidade pública, não precisaremos de mais nenhum reconhecimento.



