sábado, abril 20, 2024
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A melatonina: um hormônio antigo que desvenda os segredos do sono e da saúde

uma molécula antiga subestimada, o antioxidante lipofílico mais potente que temos à disposição.

Como uma molécula ancestral que remonta à origem da vida, a melatonina tem desempenhado um papel fundamental na regulação do sono e na modulação dos ritmos circadianos em diversos organismos vivos. Esse hormônio indoleamina é produzido e secretado à noite por pinealócitos e células extra-pineais, desempenhando um papel crucial na manutenção do nosso relógio interno de 24 horas e na regulação do ciclo sono/acorde.

Nos últimos tempos, a melatonina tem ganhado destaque graças às suas poderosas propriedades antioxidantes lipofílicas e sua capacidade de eliminar radicais livres. Estudos científicos comprovaram que a melatonina é duas vezes mais ativa que a vitamina E, considerada um dos antioxidantes lipofílicos mais eficazes. Além disso, a melatonina estimula a expressão de enzimas antioxidantes e genes relacionados à inflamação, atuando como uma importante mediadora da transdução de sinal através dos receptores de melatonina. Essa ação antioxidante também confere à melatonina propriedades imunomoduladoras, estimulando receptores expressos em células imunocompetentes.

A suplementação de melatonina tem sido amplamente estudada para o tratamento de distúrbios associados ao estresse oxidativo e/ou inflamação, tais como obesidade, doenças cardiovasculares, distúrbios imunológicos, doenças infecciosas, câncer, doenças neurodegenerativas, osteoporose e infertilidade. Revisões científicas têm se dedicado a avaliar a eficácia, segurança e possíveis efeitos colaterais dessa suplementação.

Em mamíferos, a glândula pineal é a principal produtora de melatonina durante a noite, e sua produção é regulada pelos núcleos supraquiasmáticos hipotálamicos, sendo inibida pela luz. No entanto, estudos recentes têm revelado a síntese de melatonina em outros tecidos além da pineal, como o trato gastrointestinal, ovários, linfócitos, macrófagos, retina e pele. Essa produção extra-pineal de melatonina atua de forma parácrina ou autócrina, exercendo principalmente um efeito antioxidante local. A via de síntese da melatonina é limitada pela falta da enzima SNAT e pela baixa disponibilidade de triptofano.

A meia-vida da melatonina varia de 20 a 40 minutos. Após sua secreção, a melatonina se difunde rapidamente pelo sangue e pelo líquido cefalorraquidiano (CSF). Devido às suas características lipofílicas e hidrofílicas, ela se espalha facilmente pelas membranas celulares e pode ser detectada em outros fluidos corporais, como saliva, leite, esperma e líquido amniótico. O principal metabólito da melatonina, conhecido como 6-sulfatoximelatonina (aMT6), pode ser encontrado na urina. A distribuição da melatonina no corpo não é uniforme, e as mudanças na luz e no fotoperíodo são os principais reguladores de sua síntese. Portanto, as variações sazonais de temperatura e fotoperíodo têm um impacto significativo na produção desse hormônio essencial para o corpo humano.

Em suma, a melatonina desempenha um papel crucial na regulação do sono, na proteção contra o estresse oxidativo e na modulação do sistema imunológico. Seu potencial terapêutico em uma ampla gama de condições de saúde tem despertado grande interesse na comunidade científica, que continua a investigar os mecanismos precisos e os benefícios associados ao uso dessa molécula ancestral.

Descobertas recentes revelaram o potencial terapêutico da melatonina em várias condições médicas. Em um estudo experimental, a exposição dos participantes à luz azul resultou em supressão significativa da melatonina após 1 e 2 horas, em comparação com zero. Esses resultados sugerem que os fabricantes de dispositivos eletrônicos podem ajustar a distribuição de energia espectral das telas para afetar os níveis de melatonina, com base em previsões de modelos. Essa descoberta é relevante, pois a exposição à luz emitida por dispositivos eletrônicos tem sido associada a distúrbios do sono e à redução da produção de melatonina.

célula com um escudo protetor, representando as propriedades antioxidantes da melatonina e sua capacidade de eliminar radicais livres, protegendo as células do estresse oxidativo.

Além disso, a melatonina desempenha um papel crucial no envelhecimento. Acredita-se que a deficiência noturna de melatonina, tanto em relação à sua produção como à serotonina, esteja relacionada a distúrbios associados ao envelhecimento. Estudos demonstraram que tanto a melatonina quanto a serotonina desempenham funções importantes no controle de redes neuroendócrinas e imunológicas, inibição do desenvolvimento de doenças cardíacas isquêmicas, doença de Alzheimer, formação de tumores e outros processos degenerativos relacionados ao envelhecimento. A melatonina também pode estar envolvida nos efeitos benéficos da restrição alimentar durante o processo de envelhecimento.

Sua produção e função não estão limitadas à glândula pineal, e a exposição inadequada à luz e o desequilíbrio entre melatonina e serotonina podem ter impactos negativos na saúde. Além disso, estudos sugerem que a melatonina pode ter efeitos benéficos em doenças cardiovasculares, distúrbios neurodegenerativos, doença de Parkinson e distúrbios ginecológicos, como a síndrome dos ovários policísticos. Além disso, foi proposto que o envelhecimento esteja relacionado à falha da glândula pineal em produzir melatonina a partir da serotonina durante a noite. Essa deficiência noturna de melatonina, tanto em termos absolutos quanto em relação à serotonina, pode levar a distúrbios comumente associados ao envelhecimento. Compreender o papel e os benefícios da melatonina nos ajuda a valorizar a importância de um sono saudável e adotar medidas para preservar seu equilíbrio em nosso cotidiano.

Estudos científicos têm fornecido evidências convincentes sobre os benefícios da melatonina em uma ampla gama de condições de saúde. Em um estudo experimental, treze participantes foram expostos a diferentes condições de visualização de comprimidos, e foi observada uma supressão significativa da melatonina após 1 e 2 horas de exposição aos comprimidos visualizados com luz azul. Esses resultados sugerem que os fabricantes de telas podem ajustar a distribuição de energia espectral de dispositivos auto-luminosos para afetar os níveis de melatonina, utilizando previsões de modelos. Essa descoberta é importante, considerando-se que a exposição inadequada à luz, especialmente a luz azul emitida por dispositivos eletrônicos, tem sido associada a distúrbios do sono e à redução da produção de melatonina.

A melatonina também exerce efeitos benéficos no sistema cardiovascular. Estudos em ratos mostraram que ela protege o coração através da redução de danos mitocondriais, diminuição de proteínas pró-inflamatórias prejudiciais ao coração, redução de cicatrizes cardíacas, pressão arterial, agregação plaquetária e catecolaminas circulantes, bem como diminuição do número e área de placas de ateroma. Além disso, a melatonina reduz a ocorrência de ritmos cardíacos anormais e diminui o dano ao tecido cardíaco após um ataque cardíaco. Ela também demonstrou proteger animais contra acidente vascular cerebral (AVC), neutralizando o dano às células nervosas.

Em relação a doenças neurodegenerativas, a melatonina tem mostrado efeitos promissores. Ela inibe a síntese de β-amiloide e a formação de fibrilas, que estão associadas ao declínio cognitivo e à doença de Alzheimer. Além disso, a melatonina inibe a produção de outras proteínas envolvidas no declínio cognitivo e alivia danos nos nervos na doença do príon. Estudos em ratos com doença de Alzheimer mostraram que a melatonina melhora a função cognitiva, reduzindo danos mitocondriais. Em um estudo envolvendo indivíduos com comprometimento cognitivo leve, a suplementação dietética de melatonina aumentou várias áreas do cérebro e reduziu as concentrações de proteínas patogênicas em comparação com um placebo.

A suplementação de melatonina também tem mostrado efeitos benéficos em pacientes com doença de Parkinson. Ela melhorou significativamente os marcadores de condições e função mental, além de melhorar características inflamatórias e a resistência à insulina. Além disso, a melatonina tem efeitos positivos em distúrbios ginecológicos, como a síndrome dos ovários policísticos (SOP), insuficiência ovariana prematura e inflamação ovariana.

Estudos têm revelado que a melatonina desempenha um papel crucial na fertilidade masculina, regulando a função endócrina das células de Leydig e de Sertoli, bem como reduzindo o estresse oxidativo nos espermatozoides. Baixas concentrações de melatonina têm sido associadas à redução no tamanho testicular, enquanto a suplementação exógena de melatonina demonstrou prevenir danos oxidativos ao DNA dos espermatozoides humanos.

O equilíbrio na produção e remoção de espécies reativas de oxigênio (ROS) é fundamental para a função normal dos espermatozoides, mas o desequilíbrio pode resultar em estresse oxidativo, um fator importante na infertilidade masculina. A melatonina, com sua capacidade antioxidante e baixa toxicidade, tem sido considerada uma opção promissora para melhorar a qualidade do esperma.

Estudos têm investigado os efeitos da suplementação de melatonina em homens inférteis, e os resultados têm sido encorajadores. A administração diária de 6 mg de melatonina por um período de 45 dias resultou em aumentos nos níveis endógenos de melatonina, medidos indiretamente através da 6-sulfatoximelatonina urinária (aMT6-s). Além disso, observou-se um aumento na capacidade total de antioxidantes no sêmen e na urina, juntamente com uma redução no dano oxidativo ao DNA dos espermatozoides. Os casais cujos parceiros masculinos receberam suplementação de melatonina apresentaram um aumento significativo na porcentagem de embriões de alta qualidade, com menor fragmentação citoplasmática e tamanhos de blastômeros mais uniformes.  Em resumo, a suplementação de melatonina tem demonstrado melhorar a qualidade do esperma humano, sendo um fator essencial para o sucesso da reprodução natural e assistida.

A também melatonina tem mostrado efeitos promissores em pacientes com COVID-19. Estudos têm indicado que a suplementação de melatonina pode estar associada a uma redução na hospitalização, mortalidade e necessidade de ventilação em pacientes com pneumonia COVID-19. Além disso, a melatonina tem sido relacionada à redução de trombose, sepse e mortalidade em pacientes com COVID-19. Portanto, a melatonina tem sido considerada uma ferramenta valiosa no combate a essa doença e suas complicações, além de oferecer benefícios potenciais na síndrome pós-COVID e em lesões relacionadas à terapia com agentes de mRNA.

Em conclusão, a melatonina é uma molécula multifacetada que desempenha papéis cruciais na regulação do sono, na resposta ao estresse oxidativo, na modulação do sistema imunológico e no envelhecimento. Sua produção não se restringe à glândula pineal, e a exposição inadequada à luz e o desequilíbrio entre melatonina e serotonina podem afetar negativamente nossa saúde. A pesquisa continua revelando mais benefícios potenciais da melatonina em diversas condições médicas, enfatizando sua importância como um componente vital para a saúde e o bem-estar.

Fontes:

mdpi – Is Melatonin the Cornucopia of the 21st Century?

National Center for Biotechnology Information – Physiology of the Pineal Gland and Melatonin

National Center for Biotechnology Information – Light level and duration of exposure determine the impact of self-luminous tablets on melatonin suppression

ScienceDirect – The role of melatonin and serotonin in aging: Update

Oxford Academic – Blockage of melatonin receptors impairs p53-mediated prevention of DNA damage accumulation

ScienceDirect – Melatonin supplementation and the effects on clinical and metabolic status in Parkinson’s disease: A randomized, double-blind, placebo-controlled trial

Wiley Online Library – Exogenous melatonin supplementation prevents oxidative stress-evoked DNA damage in human spermatozoa

Open Heart – Melatonin may decrease risk for and aid treatment of COVID-19 and other RNA viral infections

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